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Maria

Poetisa amadora, era uma das pessoas mais bem informadas que eu conheci. Discutia política. Sabia tudo sobre medicina e saúde – sem nunca ter estudado nada disso. Bebia cerveja. E chopp. Não usava calça comprida, só saia e vestido. Quando queria gritar “merda!”, dizia “pomba!”. Ao contrário das outras avós, não insistia para comer mais um pouquinho. “Fique magra”, me aconselhava.

Difícil era resistir a seu pastel com massa caseira (que eu revivo, sem tanto gosto, no restaurante ‘Antigamente’). Ou a seu sorvete de chocolate, que por não ter gordura, demorava um tempão para derreter (quantas colheres amassadas…). Nasceu Maria da Conceição Franchini, sobrenome italiano substituído 30 anos depois pelo Vasconcellos português de seu marido.

Morreu sem ir à Itália de seus antepassados. “Visite a cidade do seu bisavô Vicenzo”, me pediu um dia. Eu vou, vó, prometo que vou.

E com ele, espero, acabam meus posts mais tristes. O ano acabou hoje e não vai deixar saudades. Um ano que demorou a começar, que ainda não começou direito, porque quando estava prestes a decolar, alguma coisa me surpreendia.

A verdade é que não ocorreu nada muito grave – sempre pode ser pior, mas também sempre pode ser melhor. Até hoje, quando recebi a notícia mais triste dos últimos tempos.

Passe logo, 2011. Não quero pensar mais em nada. Não quero me preocupar mais em arrumar um bom emprego, nem procurar casa, nem ser sacaneada por corretores, possíveis chefes ou por gente que quer me ver pelas costas. Não quero mais me mudar, carregar minhas coisas para lá e para cá (cinco mudanças em quatro anos), me desfazer de várias, desconstruir, construir, destruir. Não quero mais brigar, me estressar, me revoltar, me arrepender. Não quero mais não me adaptar.

Tá tudo resolvido. Minha família, tirando a tristeza da notícia de hoje, está bem. Meu marido está ótimo. Estamos bem, muito bem mesmo, tenho muito mais a agradecer que para reclamar, muitíssimo mais.

Mas, 2011, não adianta. Você levou a minha avó. E o avô do Gui. E os avós de muita gente. Um ano que começou com muita tragédia no Rio, no Japão e em outros lugares. Um ano duro para muita gente. Mas, no momento, só penso que hoje, às 16h40, quando estava entrevistando um pesquisador de química, o coração da vó Maria parou.

Cuide bem dela. E tchau.

 

Fazia tempo que eu não acendia uma velinha para Balzac. Talvez porque o volume de trabalho (em grande parte free-lance) não tenha permitido que eu sentisse falta da minha criatividade. Não dava tempo. Foram muitos altos e baixos, muita expectativa e alguma frustração nestes últimos meses. Novos trabalhos, novos e-mails, novos telefones, novos “este é o seu lugar”, lá vai a carteira de trabalho, assina, volta, termina o contrato (atualmente ela está passeando por São Paulo, terra do meu atual empregador). Finalmente, um fixo. Há pouco mais de um mês, tenho CLT, benefícios, tudo bem, e ainda por cima, trabalho na Urca, delícia. Gui indo pelo mesmo (bom) caminho.

Quando tudo parecia estar se encaminhando, algumas notícias e acontecimentos me fizeram cair outra vez. De maneira arrebatadora. Tristeza todos os dias, muita saudade da minha outra vida, a vida em Madri, muita irritação com qualquer coisa ruim que acontece no Rio ou neste país. E a onda pessimista veio ainda pior do que da primeira vez. Mas não me disseram que isso passa em um ano? Que a adaptação demora uns meses? Já faz quase um ano e estou pior, como pode? Me rendi. Fui procurar ajuda. Oficialmente.

Nunca achei que meus problemas valessem uma terapia. Sempre consegui resolvê-los sozinha. Mas desta vez foi diferente. Convencida por uma amiga que passou por questionamentos semelhantes, lá fui eu. Super nervosa, achando que ia ficar meia hora esperando numa salinha com potenciais loucos, peguei um ônibus até Copacabana. Dentro dele, reconheci o sotaque de um grupo de meia-idade que falava alto com o mapa do Rio na mão. Eram espanhóis. Meu coração dispara quando escuto o idioma e reconheço o sotaque. Por um momento, me transfiro para lá. Estava decidida a passar a primeira sessão de terapia da minha vida falando o tempo inteiro do que sinto em relação a isso e aquele encontro com o grupo me deu mais certeza de que seria uma consulta monotemática.

Chegando ao consultório, não havia nenhum paciente esperando. Um estava saindo e parecia deprimido. Estou em uma clínica psicológica, pensei, com certo desconforto, é normal que haja gente deprimida. A porta da sala da minha futura terapeuta se abre e sai uma menina com o rosto inchado. Não quero chorar, não quero pagar para ficar chorando na frente de uma estranha. Tento encarar como uma consulta de dermatologista e me concentro no meu livro, até que a terapeuta me chama.

Foi ótimo. Uma bate-papo mesmo. Natália, a terapeuta, é jovem, simpática, divertida. Foi leve. Não chorei. Ou melhor, quase, mas nem de longe saí como a menina que me antecedeu. Falei mais do que ouvi, o que deve ser normal numa primeira consulta. Ela me disse coisas que eu já sabia, mas alguma delas ficaram na cabeça.

Ao sair da consulta, decidi ir embora de metrô. Na bilheteria, conheci uma equatoriana e dois colombianos que estavam perdidos, tentando ir pro Rock in Rio. Me ofereci para ajudar, expliquei que depois do metrô eles teriam que pegar dois ônibus e eles adoraram. Mal sabiam que eu estava louca para falar um pouco de espanhol desde que vi o grupo de meia-idade horas antes. E fomos conversando. Qual não foi minha surpresa ao descobrir que a equatoriana havia morado em Madri na mesma época que eu. Flipé, como diria na Espanha. Acabo de voltar de uma consulta terapêutica, onde fui e pretendo ir outras vezes para falar da minha experiência lá, na ida vejo espanhóis e na volta conheço uma mulher com vivência similar? Que raio de coincidência é essa?

Amparo (esse era o nome da equatoriana) ganhava como faxineira mais do que eu como jornalista. Mas, ao contrário de mim, não tem tantas recordações boas. Foi para lá para trabalhar duro, ficou dois anos, não se adaptou. Foi com os filhos, cuja idade não sei, mas sei que já trabalham, ou seja, ela foi num esquema totalmente diferente do meu. Fiquei pensando em que sentido tinha tudo aquilo, por que estava eu num engarrafamento no Leblon, rumo à Barra, ouvindo aquelas histórias, comparando mentalmente com as minhas, tomando cuidado para não dizer nada errado, não dizer que tudo para mim foi diferente, foi maravilhoso, que, ao contrário dela, acho que a Espanha é sim um bom lugar para criar os filhos, para viver, para ser feliz. Mas não disse nada para a Amparo.

Vai ficar para a próxima sessão com a Natália.

É aquela velha história: você está solteira, sai com um cara, fica a fim dele e ele não garante que vai querer ser seu namorado. Enquanto isso, vários outros começam a ligar e você só querendo o cara que não dá certeza. Conhece essa ladainha? Pois é, com emprego é igual…

Sou carioca e, como diz a canção, não gosto de sinais fechados – por várias razões. Mas, ao contrário da letra, adoro dias nublados, adoro ir à praia em dias nublados.

Muita gente acha estranho, mas também acham quando digo que não baixo filmes da internet, que sou a favor da Lei Seca ou que acho que ter carteira de estudante depois dos trinta é incoerente com exigir que qualquer coisa funcione bem na cidade (no país). Podem me chamar de chata, de otária, do que for, eu não quero mudar os hábitos de ninguém. Como diria minha sogra, não quero ter razão, só quero ser feliz.

Pensando nisso  - também-, ultimamente só vou a praia em dias nublados ou parcialmente nublados (ou parcialmente ensolarados, dependendo do seu otimismo). O mormaço me faz bem, me bronzeia, não arde. A praia nunca está cheia em dias nublados, me faz senti-la mais minha e mais bela por sua luz difusa, sobretudo a luz espetacular do outono aqui.

Não há muitos vendedores, só turistas chateados por terem dado com o tempo ruim. Ou cariocas tão cariocas que vão a praia para prestigiá-la, pois prestigiá-la é mais importante que qualquer bronzeado. No público das praias nubladas também figuram aqueles branquelos que respiram aliviados quando passa uma nuvem, de preferência uma nuvem bem consistente. Nesse grupo me incluo.

Desde pequena insistia em ficar no sol, já que as crianças nunca querem brincar debaixo das barracas. Muita ardência, peles descascadas e sardas depois, me dei conta de que eu não precisava me sacrificar para me enturmar. Agora, pegar muito sol é out, perigoso, envelhece, rende bronca do dermato, vivam as japonesas!, essas meninas de pele alva, sim, elas sabiam de tudo antes de todo mundo. Ainda não faço a loucura de fazer turismo com uma sombrinha, como elas, mas não abro mão do chapéu nem do filtro. Claro que, assim como os turistas desapontados com a inconstância climática do Rio, também não gosto de visitar balneários em dias nublados. Mas, na minha cidade, é uma delícia. Porque, como quase tudo na vida, a beleza mora nas nuances, nas zonas cinza e não nos extremos, não no óbvio, não no preto ou branco, não no oito e oitenta. Nem sol, nem chuva. Parcialmente.

Não cabe na TV. Nem nos jornais, nem nos milhões de tweets ou comentários no Facebook. É impossível ter a noção do que realmente é se não se está presente.

Há 15 anos, quando eu tinha 16 e me preparava para minhas últimas férias antes do vestibular, viajei com um namorado para a casa de sua família em Saquarema. Na época, as pessoas não tinham celulares. Na casa dele não havia telefone e o orelhão mais próximo ficava a uma meia hora (ou algo assim) de caminhada. Isolamento total e voluntário.

Ficaria lá uma semana ou algo mais. Não me lembro bem. Uma manhã, acordei enjoada, meio estranha, com uma tristeza inexplicável. Passei o dia mal, sem entender o porquê. Não tinha notícias dos meus pais havia dias. Era dia 14 de fevereiro.

O pai do namorado da época estava trabalhando no Rio. Morávamos no mesmo condomínio, um condomínio de classe média alta, cravado em um bosque de Jacarepaguá, com dois córregos e duas pontes que ligavam as ruas. Ele voltaria pra Saquarema no dia seguinte ao meu mal-estar. Quando voltou, com cara de enterro, vi que algo estranho tinha acontecido. Foi aí que decidimos ligar a TV.

Foi uma loucura ver em rede nacional que nosso condomínio e outros da área, além de diversas favelas próximas, estavam debaixo d’água. Uma pedreira clandestina arrebentou com a força da chuva e as pedras foram destruindo tudo pelo caminho, levando ainda mais árvores, animais, carros e algumas pessoas. Vimos um amigo nosso, também adolescente, aparecer no Globo Repórter dizendo que salvou a filha de uma vizinha na minha rua. Desesperada, eu não conseguia falar com meus pais, pois não havia telefone, e só sabia que estavam vivos porque tinha conseguido ligar para a minha avó. Fiquei sem notícias deles, acompanhando tudo pela TV porque não havia outro jeito.

Ao voltar pra casa, o cenário era desolador. Li ontem no Globo o depoimento de uma mulher dizendo que Friburgo parecia ter vivido uma guerra. E é exatamente isso. Um bombardeio de água. No meu caso, e no das cidades serranas, não havia calçadas, não havia postes, não havia meio-fio nem nada que lembrasse que aquilo era um lugar habitável. Uma ponte do condomínio desmoronou, separando-me fisicamente do meu namoradinho  – para ir à casa dele eu calçava galochas. Mas isso, claro, era o de menos no meio de tanta tristeza.

Minha casa foi uma das menos prejudicadas. Foi afetada basicamente no quintal. Mas na minha rua houve gente que perdeu tudo. Mesmo assim, não dava pra morar lá e passamos dias na quitinete da minha madrinha esperando que a água e a luz voltassem. Minha família demorou muito a se recuperar do trauma.

E isso porque não perdemos nada. O dano material foi ínfimo perto da maioria dos afetados – como sempre os mais pobres são os mais prejudicados. Sem contar que ninguém se feriu. Mas sempre que vejo as imagens de tragédias causadas pelas enchentes, imediatamente me vêm à memória duas sensações: o odor de animais mortos e o barulho de máquinas retirando lama e quebrando concreto. Passamos semanas cheirando, ouvindo, tocando e vendo indícios que nos lembravam daquele acontecimento. Ao ler a overdose de notícias sobre a tragédia da vez, a atual, os mesmos enjoo e tristeza premonitórios de 15 anos atrás voltaram. Só que desta vez depois do ocorrido. Porque, de alguma maneira, mesmo que mínima, eu entendo tanto sofrimento.

Por isso que todos os anos – todos os anos mesmo porque a cada ano há uma tragédia dessas, sempre variando de lugar - eu me pergunto o que é necessário ocorrer mais para que isso finalmente deixe de acontecer. A quantos dígitos será necessário chegar o número de mortos para que providências sejam tomadas? Precisaremos tomar um puxão de orelha internacional para deixar de desviar dinheiro, fiscalizar e combater as razões que levaram a esse desfecho? Ah, mas as Olimpíadas estão aí. Alguém vai pensar em algo até lá.

La duda

Hace mucho que no escribo. Hace mucho que no hablo español y eso me agobia, me da miedo olvidarlo y al olvidarlo me da miedo que se borre poco a poco todo lo que pasé, como si olvidar un idioma fuera olvidar una parte de la vida. Pero, pese a tener un montón de temas en el borrador, no he conseguido dar un paso, no he podido entrar aquí y desarrollarlos. Hace poco más de tres semanas estoy en Brasil y las dudas me corroen el alma. Tenemos distintas opciones, pero ninguna es lo suficientemente satisfactoria para nuestro momento ahora mismo.

Acaban de regalarme una agenda, una agenda para 2011. La veo totalmente en blanco y pienso que se llenará a partir de una decisión, de una elección que tenemos que realizar y que es el primer (de muchos, espero) gran  ’turning point’ de nuestras vidas. Me dicen que nada es definitivo, que podemos cambiar todo, que podemos ir y volver cuantas veces queramos y me vienen a la cabeza las palabras de un amigo de Guille que dice que, paradojalmente, los que tenemos mucho somos los que menos arriesgamos en la vida. Los que no tienen nada son los que se tiran al vacío y, no pocas veces, logran sus objetivos – o algo próximo a ellos. Quizá me falte la desesperación. La desesperación mueve todo. El conforto no cambia nada.

La agenda me pregunta:

Nombre: Clarissa

Dirección: todavía no definida

E-mail: clarissa… blábláblá

Teléfono: 0055? 0034?

Ciudad: ésa es la duda.

Si no puedo definir mis datos básicos, cómo puedo definir quién soy?

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