Fazia tempo que eu não acendia uma velinha para Balzac. Talvez porque o volume de trabalho (em grande parte free-lance) não tenha permitido que eu sentisse falta da minha criatividade. Não dava tempo. Foram muitos altos e baixos, muita expectativa e alguma frustração nestes últimos meses. Novos trabalhos, novos e-mails, novos telefones, novos “este é o seu lugar”, lá vai a carteira de trabalho, assina, volta, termina o contrato (atualmente ela está passeando por São Paulo, terra do meu atual empregador). Finalmente, um fixo. Há pouco mais de um mês, tenho CLT, benefícios, tudo bem, e ainda por cima, trabalho na Urca, delícia. Gui indo pelo mesmo (bom) caminho.
Quando tudo parecia estar se encaminhando, algumas notícias e acontecimentos me fizeram cair outra vez. De maneira arrebatadora. Tristeza todos os dias, muita saudade da minha outra vida, a vida em Madri, muita irritação com qualquer coisa ruim que acontece no Rio ou neste país. E a onda pessimista veio ainda pior do que da primeira vez. Mas não me disseram que isso passa em um ano? Que a adaptação demora uns meses? Já faz quase um ano e estou pior, como pode? Me rendi. Fui procurar ajuda. Oficialmente.
Nunca achei que meus problemas valessem uma terapia. Sempre consegui resolvê-los sozinha. Mas desta vez foi diferente. Convencida por uma amiga que passou por questionamentos semelhantes, lá fui eu. Super nervosa, achando que ia ficar meia hora esperando numa salinha com potenciais loucos, peguei um ônibus até Copacabana. Dentro dele, reconheci o sotaque de um grupo de meia-idade que falava alto com o mapa do Rio na mão. Eram espanhóis. Meu coração dispara quando escuto o idioma e reconheço o sotaque. Por um momento, me transfiro para lá. Estava decidida a passar a primeira sessão de terapia da minha vida falando o tempo inteiro do que sinto em relação a isso e aquele encontro com o grupo me deu mais certeza de que seria uma consulta monotemática.
Chegando ao consultório, não havia nenhum paciente esperando. Um estava saindo e parecia deprimido. Estou em uma clínica psicológica, pensei, com certo desconforto, é normal que haja gente deprimida. A porta da sala da minha futura terapeuta se abre e sai uma menina com o rosto inchado. Não quero chorar, não quero pagar para ficar chorando na frente de uma estranha. Tento encarar como uma consulta de dermatologista e me concentro no meu livro, até que a terapeuta me chama.
Foi ótimo. Uma bate-papo mesmo. Natália, a terapeuta, é jovem, simpática, divertida. Foi leve. Não chorei. Ou melhor, quase, mas nem de longe saí como a menina que me antecedeu. Falei mais do que ouvi, o que deve ser normal numa primeira consulta. Ela me disse coisas que eu já sabia, mas alguma delas ficaram na cabeça.
Ao sair da consulta, decidi ir embora de metrô. Na bilheteria, conheci uma equatoriana e dois colombianos que estavam perdidos, tentando ir pro Rock in Rio. Me ofereci para ajudar, expliquei que depois do metrô eles teriam que pegar dois ônibus e eles adoraram. Mal sabiam que eu estava louca para falar um pouco de espanhol desde que vi o grupo de meia-idade horas antes. E fomos conversando. Qual não foi minha surpresa ao descobrir que a equatoriana havia morado em Madri na mesma época que eu. Flipé, como diria na Espanha. Acabo de voltar de uma consulta terapêutica, onde fui e pretendo ir outras vezes para falar da minha experiência lá, na ida vejo espanhóis e na volta conheço uma mulher com vivência similar? Que raio de coincidência é essa?
Amparo (esse era o nome da equatoriana) ganhava como faxineira mais do que eu como jornalista. Mas, ao contrário de mim, não tem tantas recordações boas. Foi para lá para trabalhar duro, ficou dois anos, não se adaptou. Foi com os filhos, cuja idade não sei, mas sei que já trabalham, ou seja, ela foi num esquema totalmente diferente do meu. Fiquei pensando em que sentido tinha tudo aquilo, por que estava eu num engarrafamento no Leblon, rumo à Barra, ouvindo aquelas histórias, comparando mentalmente com as minhas, tomando cuidado para não dizer nada errado, não dizer que tudo para mim foi diferente, foi maravilhoso, que, ao contrário dela, acho que a Espanha é sim um bom lugar para criar os filhos, para viver, para ser feliz. Mas não disse nada para a Amparo.
Vai ficar para a próxima sessão com a Natália.